POR LUIZ GALVÃO
FALA, GALVÃO

Muitos me indagam como é o processo de compor poesia, às vezes me enviam alguns para um parecer, terreno em que me abstenho. Vou falar um pouco de como funciono: não escolhi ser poeta. Nasci com essa missão que, por um tempo, talvez por influência da minha mãe que rasgava meus poemas e destinava ao lixo, na beira do Rio São Francisco em Carnaíba, distrito de Juazeiro, onde passava férias em uma fazenda da família; escrevia na areia escaldante do meu sertão, para poupá-la.

Mas, na frente, já adolescente, conheci Pedro Raymundo, um arquiteto poeta, onde ficava horas em sua biblioteca me deleitando com Drummond, Fernando Pessoa, Vinícius, Victor Hugo e outros poetas, mergulhava naquele universo e lia de tudo: os filósofos, Sócrates, Platão, Diógenes – que preferia o sol ao Rei – e fui formando minha base, incluindo os modernistas, os concretos, os nordestinos como Patativa e outros; e fui vivendo estudando, me formando em contabilidade, agronomia, servi o exército, pensei até em ser militar, não fui aprovado. Ainda bem. Depois me reencontrei com João Gilberto e timidamente lhe mostrei alguns poemas. Ao ler me disse que eu devia ir para o Rio de Janeiro me estabelecer como compositor, mas, naquele momento, com um bom emprego, tinha uma vida de atleta, uma namorada. Achava que meu mundo era aquele. À noite me lembrava das palavras de João e ia tocando a vida. Um dia encontrei com Tom Zé, quando trabalhava em Irará, e este me apontou o caminho do encontro com Moraes, e tudo ficou virado, nasceu Novos Baianos.

Voltando à poesia, vou fazer uma lista dos meus critérios:

1) Poesia é inspiração, chega quando menos se espera.
2) A rima é consequência, não o objetivo principal.
3) Sou ligado na métrica e uma musiquinha me soprando algo.
4) Não escolho tema, ele sempre me chega.
5) Não estou nem aí para o que está na moda nem fazendo sucesso.
6) Não procuro me repetir, deu certo? Vamos ver o que vem agora; o novo sempre se apresenta.
7) Não sou chegado ao romantismo, prefiro retratar o que está acontecendo com toda sua linguagem e costumes da geração, mas quando vem solto, como é o caso de Preta Pretinha.
8) Ter um estilo próprio, ser eu mesmo, abro o coração que ele está lá.
9) E o mais importante: saber profundamente do que está tratando. Uma coisa de cada vez.
10) Escolher o parceiro certo para a música, nesse departamento tenho sorte.

Falei